Mulheres e literatura

Por que discutir a relação entre mulheres e literatura em um curso de formação de futuros professores?

 

Um dos grandes desafios da escola contemporânea é a formação de leitores. Pesquisas, como as realizadas pelo Instituto Pró-Livro, mostram que ainda lemos pouco em nosso país e que o acesso ao livro não é tão fácil como parece.

 

Muito se sabe sobre o papel da escola e do professor na formação de novos leitores mas ainda pouco se fala sobre a história leitora desses responsáveis por desempenhar esse papel. Será que os professores são bons leitores, apaixonados por livros e que tem o hábito de ler?

 

Minha experiência como professora em um Curso de Pedagogia tem mostrado que não! Eu, como apaixonada por livros, sempre perguntei, independente da disciplina ministrada, aos futuros professores, quem gostava de ler. As respostas apontavam para uma pequena minoria.

 

Quando comecei a mediar um Clube de Leitura para futuras professoras, na Instituição de ensino para a qual trabalho há catorze anos, me deparei com alunas que, estando a dois semestres de concluir a formação, não liam um livro há seis anos ou, ainda, com outras que nunca tinham lido um livro em toda a sua vida.

 

O trabalho com o Clube tem, pouco a pouco, mudado esse cenário: alunas que não liam começaram a ler um livro por mês e a gostar do que estavam lendo. O prazer em ler é (re)descoberto, sobretudo pela crença de que são capazes de dar conta dessa tarefa que, antes, parecia possível apenas àqueles que não tem tantas atribuições na vida. Desde o início, o Clube tem sido formado, prioritariamente, por mulheres (desde o início das atividades, em 2015, tivemos apenas um homem e sua participação durou um semestre), que adiaram o sonho do ensino superior pelas contingências econômicas e/ou familiares. Boa parte delas divide o seu tempo entre a Faculdade, o trabalho, os filhos, a casa....

 

A cada leitura, o grupo foi se fortalecendo e o sentimento de pertencimento passou a ser partilhado por todas. À socialização das experiências leitoras foi se somando a socialização de vivências que mesmo tão distintas, foram falando sobre a experiência de ser mulher (em uma sociedade que é machista, que valoriza o patriarcado, ao mesmo tempo que desvaloriza, objetifica a mulher...)

 

Nesse segundo semestre de 2017 ficou decidido que a Liga das Faculdades Leitoras, da qual nosso Clube faz parte, leria obras escritas por mulheres.

 

Para mim, ler mulheres era natural (eu havia acabado de ler a tetralogia da Elena Ferrante), mas eu ainda não havia parado para examinar a minha estante de livros e me dar conta de que minha história leitora foi construída muito mais com base em autores, do que em autoras.

Começamos conversando sobre o livro Sejamos todos feministas, de Chimamanda Ngoze Adichie e a discussão foi riquíssima. Preconceitos foram desfeitos (feminista “odeia” homens e não precisa deles para nada), consciências foram ampliadas (não somos tão feministas como imaginávamos; a roupa curta de outra mulher me incomoda; a educação familiar dos meninos continua sendo diferente da educação das meninas).

 

As questões que surgiram dessa leitura se somaram àquelas que já vinham permeando minhas reflexões sobre ser mulher em um grupo tão heterogêneo e ao mesmo tempo, com tantos pontos de semelhanças. Surgiu delas o desejo de aprofundar essas questões a partir de um interesse comum: a literatura.

 

Desse desejo nasceu o 1º Ciclo de Palestras “Mulheres e Literatura”, organizado pelo Clube de Leitura da Faculdade Sumaré (Unidade Santo Amaro), com o grande apoio da Mariane Souza e da Rafaela Deiab, da Companhia das Letras.

 

Tivemos nosso primeiro encontro, realizado em setembro, com as queridas Mariana Mendes e Carolina Freitas da Cunha, do Canal do Youtube Bondelê. Elas vieram partilhar conosco seus conhecimentos sobre a produção literária de mulheres no Brasil e suas experiências com as entrevistas com mulheres incríveis que fazem literatura em nosso país. A adesão foi grande, mesmo em um horário que não há, originalmente, nenhuma atividade na Faculdade. As alunas amaram a conversa e saíram transformadas já desse primeiro encontro.

 

No mês de outubro, receberemos uma grande mulher: Maria Vilani. moradora do Grajaú há mais de 40 anos, poetisa, escritora e que virá conversar conosco sobre a trajetória das mulheres no Brasil, por meio de poemas de escritoras brasileiras.

 

Em novembro receberemos Rita Mattar, Editora da Companhia das Letras e responsável pela edição dos livros de Rebecca Solnit. Ela irá conversar conosco sobre o Feminismo no Brasil e no mundo.

 

Esperamos que esse seja somente o primeiro passo de um projeto maior que possibilite o constante pensar e repensar sobre a mulher e seu papel social, construídos na interação com múltiplas vozes sobre o tema.

 

Maria Elena Roman é professora em pedagogia na Faculdade Sumaré.

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