Considerações sobre a “Criação Crioula, Nu Elefante Branco"

03/10/2019

Aviso: este é um post da página "Escritora Miriam Alves" do 05/05/2018.

 

Considerações sobre a "Criação Crioula, Nu Elefante Branco" - I Encontro de Poetas e Ficcionistas Negros - Setembro - 1985- São Paulo - SP.

 

Hoje levei um susto, procurando o livro Criação Crioula, Nu Elefante Branco - I Encontro de Poetas e Ficcionistas Negros -Setembro 1985- SP. Encontrei na Estante Virtual por um preço de R$300,00, pela descrição foi provavelmente um livro que dei, pessoalmente, para pesquisadora, já falecida, Nelly Novaes Coelho num encontro em Brasília.

Passou em minha mente um filme de como Arnaldo Xavier, Cuti Silva e eu elaboramos e realizamos a publicação, com ajuda de amigos que trabalhavam na Imprensa Oficial do Estado de São Paulo na época. E de depois de pronto o lote todo foi despejado no saguão do prédio, nós três que trabalhávamos e não podíamos sair do emprego para ir buscar, ficamos sabendo que algumas pessoas estavam passando e pegando os livros.
Para resumir, não me lembro como e nem quem retirou o lote que já não era de mil exemplares, levou para a casa do Arnaldo. Mandamos alguns exemplares para bibliotecas e instituições, um trabalho de um dia inteiro na minha casa, endereçando, envelopando e selando com nosso dinheiro de funcionários públicos. O restante distribuímos cotas pelos autores, a guisa de direito autoral, na época não poderíamos vender por ter sido impresso em órgão público, então cada um daria o destino que bem entendesse aos seus livros.


Esse fato me faz refletir muitos aspectos sobre a literatura negra e mercado editorial. Um deles é que, a nossa produção intelectual para circular exigiu e exige de nós, sujeitos da própria história, retirar de nós mesmo a mais valia de um sistema de saber hegemônico, perverso e hipócrita, para nos tornar raridade e ser vendida a peso de ouro de nosso sangue e lágrima. Depois atestam os nossos heroísmos e nos classificam como bem entenderem, sem ao menos considerar as ideias e interlocuções que estabelecemos com o status quo do saber. Enquanto raridade nos tornamos inacessível a leitores e pesquisadores negros ou não, que se interessam em conhecer o nosso ponto de vista quando nos referimos que fazemos literatura negra.
Literatura Negra, não só por sermos negros, mas inclusive por pensarmos nossa posição, refletirmos, questionarmos nosso lugar no mundo e construirmos outros parâmetros para seguir, baseados em pensadores negros e negras - brasileiro, estadunidense, angolanos, caribenhos, antilhanos-, que antes de nós ousaram a refutar o saber brancocêntrico.

 

Nesses exemplos fomos buscar inspiração e abrigo, registramos nossas conformidades e inconformidades por escrito, fazendo com que hoje, por mais que seja difícil o acesso aos livros e textos que nós elaboramos, e só serem conhecidos a partir de citações de intelectuais, a maioria partidários de uma ideologia branco-centrada, que nos citam muitas vezes para nos negar. Mas que assim mesmo, deixam pistas importantes sobre a nossa existência e o nosso pensar.


Contraditoriamente, o peso de ouro pedido ao livro Criação Crioula, Nu Elefante Branco, nesse mundo capitalista, demonstra o valor que nos é dado pela nossa produção cultural, o que me remete, tristemente, a predação da produção cultural das diversas nações do continente africano, invadido e saqueado, está no Museu do Louvre e tem donos individuais que lucram com sua exposição. A inquietação que me assolou nesse episódio, fez crescer a certeza de não querer ser uma peça de raridade literária num leilão virtual, ou mesmo nos museus da intelectualidade acadêmica, que de tempos e tempos nos retiram de seus armários de coleções de mentes, para nos expor como sendo nossos donos.

Segue aqui o documento em 3 partes:

 

Parte 1: https://www.dropbox.com/s/hvpo51qtg3o9be4/criola.PDF?dl=0 Parte 2: https://www.dropbox.com/s/mo4toxptv1xxp0y/criola2.PDF?dl=0 
Parte 3: https://www.dropbox.com/s/6br9q30j685by0o/criola3.PDF?dl=0


Boa leitura e boa pesquisa.

 

 

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