Simone, Elena e nós

24/07/2017

Fazia livros que eu não lia autores mais antigos – a pilha de próximos ao lado da minha cama tem crescido vertiginosamente às custas dos contemporâneos. Decidi que era hora de tomar um fôlego das palavras atuais e voltar um pouco no tempo. Ainda com uma mulher – tenho lido quase só mulheres, uma decisão tomada sem que eu a tomasse conscientemente, talvez só para tirar o atraso de anos. De séculos.

 

Peguei A mulher desiludida, da Simone de Beauvoir, já que o segundo sexo seguiria primeira escolha. E que surpresa. E que angústia. As palavras acertando em cheio os sentidos que há tantas décadas já havia, e eu achando que a discussão era recente. Mas sem sacrificar uma complexidade que hoje às vezes escapa, nessa conversa – sim – ainda tão nova sobre a condição feminina.

 

O livro vai num crescendo: a primeira história é narrada por uma intelectual em crise com a passagem do tempo. Uma abertura à questão. Crise com o marido e com o filho, que escolhe uma nora arrogante e opta por caminhar longe do que os pais decidiram para a vida deles (e do filho). Problemas mundanos. Até mesquinhos. Nem uma intelectual escapa de ser um estereótipo de sogra, afinal.

 

Na segunda história, a narradora é uma mulher amargurada, sofrida, solitária. Louca. Vitimizada pelo mundo, segundo seu próprio olhar. Ocupando sem necessidade de ajustes o papel de vítima. Ora, mas a Simone não era feminista?, cheguei a pensar, ingênua, incomodada, como se feminismo significasse apenas falar bem das mulheres, simplificando-as num estereótipo. A narradora da segunda história do livro é odiável. Repugnante, egoísta. E complexa.

 

A terceira história, auge do livro, quem narra é uma mulher que descobre estar sendo traída. E que, para manter o marido, para garantir a relação, sem a qual não sabe existir, abre todas as concessões. Permite o caso. Divide o tempo com a outra mulher. Desconsidera seu mal-estar, sua angústia, procura seus erros, se vendo culpada pela perda de interesse daquele que  acreditava ser seu homem . Quanto mais concessões ela faz, mais ele se afasta. A mulher se destruindo. O casamento já findo, perdendo, osso por osso, sua estrutura morta. O abismo além dele: nada. E então o livro acaba.

 

E então, eu angustiada da dor dessa mulher. Como assim? Não há saída? Não há nada para além do nada na vida de uma mulher casada que perdeu o marido? E o feminismo, nessa história? Mas a última página do livro já havia sido virada, e depois dela o silêncio em que boiavam todas essas minhas perguntas.

 

Próximo livro. Dedilhei um, peguei outro na mão. Não, esse não. Não seria melhor uns dias sem leitura nenhuma, só para pensar naquele medo que A mulher desiludida me entregou? Não vá me abandonar, hein?, cheguei a dizer ao meu companheiro, meio irônica, meio sabichona, inteira temente. Dias de abandono, da Elena Ferrante. Se caímos no vazio, então por que não chafurdar, não é mesmo? Mal sabia eu, ao abrir o livro, que não poderia haver escolha melhor. Dias de abandono, me pareceu, é uma resposta a A mulher desiludida. Ainda que no começo esteja o mesmo vazio em que eu já me encontrava depois da última leitura. Com a diferença de que Olga, a narradora de agora, sabe da existência deste vazio e quer a todo custo ultrapassá-lo. Mas não consegue. Inconformada de que suas leituras, inclusive do próprio A mulher desiludida, não lhe servissem de nada no momento mesmo do abandono. A mesma questão, décadas depois. A mesma dor. As mesmas mulheres, tão outras, tão desejosas de ultrapassar a si mesmas.

 

Até quase o final dos Dias de abandono, eu estava mesmo desiludida. Para que serve então o feminismo além de apontar nossos problemas, se não os ultrapassa, não os soluciona? De que adianta olhar para o que já sentimos, para o que já é tão nosso, se não se propõe, ou pior, não se enxerga nada além?

 

Prossegui. Mergulhei de novo na falta de sentido da vida de uma mulher abandonada. Mas, se A mulher desiludida substantiva uma condição, chega nela ao final da narrativa a que se propõe, os Dias de abandono fazem jus ao nome, e incluem a passagem do tempo. Os dias de dor, o escancaro da ferida. E o depois. O livro de Ferrante não termina no abismo. A autora nos concede, dentro da narrativa, o que ela mesma teve em relação à antecessora Beauvoir: o tempo.

 

Depois que o homem vai embora, depois dos dias terríveis consigo mesma e com as crianças, depois de esquecer quem é, conforme a vida prossegue (porque prossegue), Olga percebe que Mario, que fora seu marido, “Tem os defeitos de todos, é um como tantos.” Porque todos, homens e mulheres,  “Às vezes somos bons, às vezes detestáveis.” E então consegue “soltar os nós dos nervos apertados ao redor das emoções”.

 

E então compreendi. Compreendi A mulher desiludida e os Dias de abandono, este como resposta àquele, tanto dentro da história, que simplesmente continua – uma mulher perde o marido, se vê perdida sem ele, mas o tempo passa e ela pode se reconstruir, ou se construir –, quanto fora dela, dentro do que costumávamos chamar de História. Compreendi o feminismo como um caminho começado, que estamos trilhando, longo, cuja direção em partes já nos foi dada, em parte cabe a nós dar.

 

Porque “Existir é isso, um sobressalto de alegria, uma pontada de dor, um prazer intenso, veias que pulsam sob a pele, não há nada mais de verdadeiro para contar.” E o tempo.

 

Natalia Timerman é médica psiquiatra pela Unifesp, psicoterapeuta, mestre em psicologia clínica pela USP. Trabalha como psiquiatra no Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário desde 2012. Desterros é seu livro de estreia.

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